Queridos Márcio e Rômulo,
Em homenagem a vocês publico abaixo texto sobre a primeira versão de “Casa de Bonecas” encenada na Cooperativa em 2006:
Teatro ou Discussão
A peça “Casa de Bonecas servida por homens”, em cartaz em Brasília, configura um convite para papo bem descontraído sobre o tema da masculinidade, instigando o público por meio da discussão sobre o “ser masculino”. Entretanto esta discussão não tem o caráter restrito e determinado de modo a esgotar o tema, muito menos a ambição de encontrar respostas ou marcar posição sobre a questão “ser homem”. A peça, antes de tudo, é uma obra de arte cênica que conta com recursos originais, fruto da criação coletiva de um grupo de homens. Encenada em um bar a peça incentiva a participação do público que aceita o convite para beber e conversar. De estrutura simples e contagiante, a ação se desenvolve com uma sucessão de monólogos que lançam luz a fatos e relatos marcantes na vida dos personagens. Assim, vão surgindo histórias, reminiscências do tempo de menino, desafios e ritos de passagem, tal como abordado no livro “João de Ferro” de Robert Blay, mas, à medida que a encenação avança o público o público começa a se embriagar com visões e sensações que o levam ao imaginário dos rituais dionisíacos. A integração das narrativas por meio da excelente atuação dos atores deixa o clima com uma atmosfera excitante e reflexiva. Excitante, pois todos são tomados pela identificação do que é apresentado, e o relaxamento promovido etilicamente permite a reflexão. Como por encanto, é possível imaginar faunos e sátiros em cena, bacantes na platéia seduzem e reagem às provocações. A cada momento um ator saca seu texto com a expectativa da mimesis, da imitação da divindade, que naquele ambiente dionisíaco somente poderia ser a do deus Baco. Por essas características, “A Casa das Bonecas servida por homens” surge como uma obra ancorada na origem do teatro, remete-nos ao cortejo e festas em adoração a Dionísio, as bacanais, que na tentativa da imitação dos Deuses davam voz individual e transcendente aos meros mortais. Obra cênica de verve original e formato contemporâneo, que ousa o mote da discussão como isca e se mostra como inusitado exemplar do teatro brasiliense de excelente qualidade, fato que hoje tem se tornado tão raro em Brasília.
Grande abraço,
Do amigo
Adauto
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